Joana Simões: a guarda-redes que já brilhou como ponta de lança

A rúbrica “Entrevistas Ambidestro” está de volta, e esta semana estivemos à conversa com Joana Simões, atual guarda-redes da equipa feminina do Quintajense.

Bilhete de identidade:

Jana com a taça de campeã nacional do Campeonato de Promoção

Nome: Joana Rita Pereira Simões

Data de nascimento: 11 de Maio de 1999

Nacionalidade: Portuguesa

Peso: 60kg

Altura: 1.70m

Posição: Guarda-Redes

Número: 97

Alcunha: Jana

 

AMBIDESTRO: Fala-nos um pouco da tua carreira. Como é que o futebol surgiu na tua vida?

Joana Simões : O futebol surgiu na minha vida praticamente desde bebé. O meu pai adora futebol, e fez questão de me fazer sócia do Vitória Futebol Clube assim que pôde. Como morava num bairro, e tenho um irmão mais velho, costumava ir jogar com ele para a rua, onde também costumavam jogar duas raparigas do nosso bairro.  Ironia do destino ou não, somos agora colegas no Quintajense Futebol Clube. Jogos aqui, jogos ali, bairro contra bairro, e o futebol foi ficando no sangue.

AMBIDESTRO: Soube que já jogaste na posição de ponta de lança, como se proporcionou a tua passagem para a baliza?

Joana Simões : Na verdade, já fui guarda-redes quando era mais nova. Quando jogava no CCDBA (Centro Cultural Desportivo Brejos Azeitão), tive como treinador de guarda-redes, o grande Cândido Rego, um treinador a quem ganhei um grande carinho.E se eu já gostava da baliza este senhor fez com que gostasse mais. Entretanto quando fui para o Quintajense, anos depois de ter saído do futebol, optei por jogar à frente. Deste modo, na época passada joguei a ponta de lança e esta época o mister Pedro apostou em mim a lateral, e digamos que correu bem.Não fazia parte das minhas contas voltar à baliza, porém a meio da época o nosso mister Ernesto saiu e com esta saída foram também algumas jogadoras, incluindo a nossa guarda-redes principal. Sem mais ninguém para a baliza eu disse que não me importava, e também houve quem pedisse que eu fosse. Isto ocorreu numa sexta-feira, e no dia a seguir, sábado, íamos jogar com o Estoril. Foi uma passagem “brusca”, mas valeu a pena, tenho muito a agradecer aos misters e às minhas colegas de equipas que foram fundamentais e sempre me apoiaram.

Joana, num dos momentos enquanto brilhava fora das quatro linhas

AMBIDESTRO: Renovaste por mais uma temporada com o Quintajense, quais os teus objetivos para a época que se avizinha? Quer a nível individual, quer a nível coletivo?

Joana Simões : Esta época estabeleci muitos objetivos, no individual quero melhorar para poder dar o melhor de mim à equipa e crescer como guarda-redes. A nível coletivo vamos lutar pela subida novamente. Não vamos desistir facilmente, vamos dar luta.

AMBIDESTRO: Quem é o jogador (a) que mais te inspira, tanto no futebol feminino, como no futebol masculino?

Joana Simões : Tenho dois guarda-redes que me inspiram muito no futebol masculino, Eduardo Carvalho, que já passou no Vitória FC e pela seleção portuguesa, e Diego Costa, também antigo guarda-redes do Vitória. A nível de futebol feminino gosto muito da Rute Costa, que é sem dúvida, a minha principal referência. Fora de guarda-redes não podia deixar de referenciar o Cristiano Ronaldo pelo seu trabalho e empenho, a sua história é fascinante!

AMBIDESTRO: És ainda muito jovem, e estás agora a começar a afirmar-te no futebol sénior. Qual a tua ambição em termos nacionais e internacionais? Há alguma liga que gostasses de experienciar?

Joana Simões : Não penso já em sair do Quintajense, não quero dar um passo maior que as pernas, como se costuma dizer, e o meu coração é azul e amarelo. Porém gostava de representar um “grande” português. Por agora a nível nacional, a minha ambição é crescer e evoluir como jogadora, e no futuro jogar num clube profissional. A nível internacional era um prazer poder sair de Portugal para fazer o que mais gosto. Gostava de experimentar, talvez, o PSG ou o Barcelona.

AMBIDESTRO: Sei que já jogaste numa equipa mista, e só depois passaste a jogar numa equipa feminina. Quais as principais diferenças que encontraste a nível de jogo, de formas de tratamento, etc.?

Joana Simões : Já, foi no CCDBA, e era a única rapariga.

Joana iniciou a carreira no CCDBA. A guarda-redes era a única rapariga da equipa

A nível de tratamento por parte dos diretores, treinadores, dirigentes etc. do clube, foi tudo 5 estrelas, trataram-me sempre bem, e nunca me inferiorizaram por ser rapariga. A nível de jogadores é que era mais complicado, muitos viam-me como um elemento mais fraco, era rapariga… Uma vez contra uma equipa lembro-me de um jogador dizer “É uma menina na baliza? Vamos ganhar por muitos” no fim desse jogo acabamos a ganhar e acho que foi uma chapada sem mão, mas também éramos muito novos e acredito que não tinham noção do que diziam. Talvez o que gostava menos, era quando em choque com algum adversário, o treinador do mesmo dizia “até a menina já se levantou e não está a ser mariquinhas” acho que estes comentários, embora sem intenção, deitam abaixo o sexo feminino e parece que só nós mulheres é que nos aleijamos.

AMBIDESTRO: O futebol feminino ganhou mais notoriedade junto do público e dos meios de Comunicação Social, desde que equipas como o Sporting, o Braga, e agora o Benfica criaram uma equipa. Como é que os clubes “mais pequenos” viram este ingresso?

Joana Simões: Penso que vimos isto de maneira positiva, pois é verdade que há mais espectadores desde a entrada dessas equipas e quanto maior visibilidade melhor para todos nós. Claro que nos foi colocado um maior desafio em cima, ter de confrontar essas equipas, mas trouxe jogadoras profissionais a Portugal e fez o futebol feminino crescer.

AMBIDESTRO: O Benfica vai começar na II Liga, e o Sporting também anunciou recentemente a criação de uma equipa B que irá competir no Campeonato de Promoção. O que achas que estas equipas irão trazer à competição?

Joana Simões: Bem podia dizer que a criação destas equipas iria trazer mais competitividade às respetivas series, mas infelizmente todos sabemos que as diferenças financeiras entre eles e os outros clubes são brutais… basta ver a forma como o Benfica se reforçou. É claro que é positiva a criação das equipas, mas vai criar uma grande diferença nos resultados dos jogos devido à desigualdade de condições.

AMBIDESTRO: Portugal foi campeão da europa em 2016. E a seleção nacional de sub-19 também se sagrou campeão europeia no passado dia 29 de julho.  O que é que na tua opinião, ainda falta ao futebol feminino nacional, para poder estar nas fases decisivas de competições como estas?

Joana Simões: Mais apoio da federação aos clubes “pequenos”, mais iniciativas para trazer raparigas a jogar e também que as próprias pessoas apoiem mais. Ir ver os jogos aos estádios quando possível, ver na televisão quando passam, etc. A visibilidade é importante no futebol feminino e a mentalidade das pessoas tem de mudar.

AMBIDESTRO: Que medidas é que a FPF podia tomar para tornar o Futebol Feminino mais profissional, ou seja, para que mais jogadoras pudessem fazer do futebol, a sua vida a 100%?

Joana Simões: Primeiro, acho que o escalão sub-19 devia jogar futebol 11 e não futebol 9. Na minha opinião não faz sentido, somos juniores tal como os rapazes, não entendo porque temos de jogar futebol reduzido, os escalões e os jogos deviam ser totalmente iguais no feminino e no masculino. Depois tal como acontece no futebol masculino, devia haver um prémio monetário às equipas participantes na taça de Portugal, são com as pequenas coisas que vamos crescendo e já seria um grande apoio às equipas mais pequenas.

Apesar de hoje atuar como guarda-redes, na época passada jogou algumas vezes como lateral

AMBIDESTRO: Voltando à tua experiência como futebolista. Qual foi a equipa ou jogadora que mais dificuldades te fez sentir quando a defrontaste?

Joana Simões: Sem dúvida o Braga e o Sporting, as duas grandes da Liga Allianz. Estava a tremer antes de entrar em campo, principalmente contra o Sporting pois estava na baliza há pouco tempo.

AMBIDESTRO: Qual o treinador(a) que mais te marcou até agora?

Joana Simões: Apesar de ser recente, digo, sem dúvidas, o meu mister atual Faisal Aboobakar. Nunca me deixou desistir, já me viu muitas vezes a perder a cabeça, a chorar etc. e mesmo com os erros nos jogos, sempre esteve lá a puxar-me para cima, sem nunca me deixar desistir, certamente um treinador que levo para a vida. Não só pela maneira como me apoia, mas essencialmente como apoia a equipa toda. Fez-nos acreditar até ao fim.

AMBIDESTRO: Qual o pior momento da tua experiência como jogadora?

Joana Simões: Ter deixado de jogar entre 2011 e 2016, por problemas de saúde, ou um treinador ter dito que eu era uma porcaria, por outras palavras mais brutas. Espero um dia evoluir para lhe agradecer, pois essas palavras, em vez de me fazerem desistir, fizeram com que quisesse mostrar-lhe que estava errado.

AMBIDESTRO: E qual o melhor?

Joana Simões: Sermos campeãs nacionais no campeonato de promoção e jogar na Liga Allianz.

AMBIDESTRO: Quais os teus objetivos para o futuro?

Joana Simões: Continuar a jogar futebol, conseguir conciliar com a faculdade e quem saiba fazer do futebol a minha vida.

AMBIDESTRO: Sonhas um dia, poder representar a Seleção Nacional?

Joana Simões: Sem qualquer dúvida, seria uma honra, representar o meu país, seria o meu maior orgulho.

AMBIDESTRO: Em Portugal, infelizmente só o Sporting, o Braga e o Benfica é que conseguem ser equipas quase 100 % profissionais. Tens algum plano para conseguires conciliar o futebol com a tua vida profissional?

Joana Simões: Infelizmente não, e é muito difícil. Pois não posso abandonar os estudos ou abdicar do trabalho, mas também me “recuso” a abandonar o futebol. Com muito trabalho espero conseguir conciliar, enquanto houver 1% de chance há 99% de fé, e não há desculpas.

AMBIDESTRO: Para terminar o que tens a dizer a todos os jovens, que estão agora a começar e que tem o sonho de vingar no futebol?

Joana Simões: Primeiro de tudo, que não pensem que vai ser fácil. Depois que se lembrem que o futebol não é um jogo individual, mas sim coletivo. Trabalhem, deem 200% de vocês mesmo, usem as críticas para crescer e mostrar que quem vos critica está errado. É também muito importante que tenham cabeça, e não a perder em certos momentos mais complicados.


Em meu nome e em nome do Ambidestro, agradeço a entrevista e desejo-te as maiores felicidades para a tua carreira.

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Cristiana Pina

Licenciada em Comunicação Social pela ESEV. Sou uma pinhelense de gema que adora futebol e toda a magia que lhe é inerente. Escrever é uma das minhas grandes paixões.

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