Geração de Ouro, Geração Coragem… teremos agora uma Geração Diamante?

É apanágio dos jornais desportivos extravasar um pouco da objetividade e seriedade impostas ao jornalismo para cativar leitores e refletir no seu trabalho um pouco da espetacularidade do “desporto rei”. A imprensa de todo o mundo, com especial preponderância na América do Sul, tenta arranjar alcunhas aos jogadores de futebol baseadas em características físicas ou futebolísticas dos jogadores. “La Pulga”, “El Pibe de Ouro”, “La Bruja” Verón, “El Conejo” Saviola, Ronaldo “Fenómeno”, “Rei” Pelé, ou “Aranha Negra” Yashin, são meros exemplos de entre tantos.

Em Portugal não há uma cultura tão prolífica de alcunhas a jogadores, com claras exceções- “Cinco Violinos”, “Pantera Negra”, “Monstro Sagrado”, e mais recentemente o “Puto Maravilha”- são algumas alcunhas que ainda ressoam no imaginário futebolístico luso. Mas no nosso país gerou-se uma tradição diferente desde o início dos anos 90′ e que parece continuar nos dias de hoje.

Figo segura a taça de campeão do mundo perante 127 mil pessoas

Em 1989 começou a ser escrita a história das alcunhas a seleções jovens, naquela que foi a Geração de Ouro de Luís Figo, Fernando Couto, Rui Costa ou João Vieira Pinto. A seleção portuguesa sagrou-se campeã mundial na categoria sub-20 na sétima edição do certame, que teve a Arábia Saudita como anfitriã. Num grupo com a Nigéria, Checoslováquia e a seleção da casa os lusos acabaram em primeiro lugar, batendo em seguida a Colômbia e o todo-poderoso Brasil até à final, onde reencontrou e venceu por 2-0 a Nigéria.

Na edição seguinte o vencedor foi o mesmo. Em 1991, Carlos Queiroz levou novamente Portugal ao ouro dois anos depois de Riade. O ouro só foi conseguido nas grandes penalidades frente ao Brasil de Élber e Roberto Carlos, na edição em que Figo, Rui Costa e JVP despontaram. Esta vitória foi ainda mais especial por ter sido caseira: a final jogou-se no antigo Estádio da Luz com 127 mil espetadores. Os craques amadureceram e ditaram o surgimento de Portugal entre as nações que melhor futebol joga no mundo.

A “Geração Coragem” contra a conjuntura

A Geração Coragem é mais recente mas alguns já nem se recordarão dos seus feitos. Remonta ao Mundial sub-20 de 2011, quando a seleção portuguesa teve uma improvável caminhada até à final, sem sofrer golos, e foi aclamada pela imprensa portuguesa como sendo “corajosa” já que as baixas expetativas nesta equipa não faziam prever tal desfecho. Uma equipa formada de jogadores pouco conhecidos, num contexto de crise económica, forte emigração dos jovens e falta de aposta no jogador português fez com que esta equipa ficasse para sempre apelidada de “Geração Coragem”. Apesar de corajosos, os portugueses foram derrotados pelo Brasil de Óscar, Casemiro e Willian na final. Apenas Danilo Pereira, Cédric, Nélson Oliveira e Mário Rui chegaram à seleção principal.

A Geração Coragem desafiou as expetativas e o negativismo

A Geração de Ouro brilhou durante 16 anos na seleção nacional, ou seja, foi essa a longevidade dos jogadores dourados na seleção A. O último resistente foi Luís Figo, talvez a pepita mais valiosa de todas, no jogo de atribuição do terceiro lugar do Mundial de 2006. Marcou uma época em que o nosso país esteve perto de finalmente ganhar uma grande competição, não fosse a tragédia grega de 2004, 38 anos volvidos do bronze no Mundial de 1966, e Zidane nas meias-finais do Euro 2000. A justiça seria reposta e uma seleção não tão brilhante mas movida pela fé nos seus líderes, Fernando Santos e Cristiano Ronaldo, convenceu-se de que só voltaria no dia a seguir à final, ainda por cima com um sorriso na cara. E voltou.

 

Portugal perdeu no atual formato em 2003, 2014 e 2017. João Pereira, Hugo Almeida, Gelson Martins, Rony Lopes e André Silva são alguns dos nomes que guardam a medalha de finalista vencido no Europeu sub-19. No ano passado, sete dos agora campeões fizeram parte da seleção vencida pela Inglaterra e como tal a vitória de ontem deve ter tido um sabor ainda mais doce.

Procura-se nome para esta geração

Os diamantes, ainda em bruto, descobriram-se à Europa em 2016 no Europeu da categoria sub-17. Neste escalão, ainda ao nível dos juvenis, Espanha e Portugal dominam o palmarés com nove e seis vitórias, respetivamente, juntando o formato sub-16 e sub-17 (que se iniciou em 2002). Depois de deixar os sub-19 com Emílio Peixe, Hélio Sousa pegou na talentosa equipa de sub-17. No distante Azerbaijão destacaram-se jogadores como Zé Gomes, João Filipe, Miguel Luís, Quina, Gedson, Dalot, a dupla Queirós na defesa, Vinagre na esquerda, Diogo Costa na baliza ou Rafael Leão. Ganharam com distinção o primeiro certame da categoria desde 2003 e colaram-se ao rótulo de jovens promessas.

Dois anos passaram e os miúdos chegaram à etapa última antes dos seniores, e a maturidade de alguns impossibilitou a presença na Finlândia. Gedson, Dalot, Diogo Leite, Maximiano estão à prova nas suas equipas, tal como o selecionável João Félix, enquanto que João Queirós, Luís da Silva, Lameira e Mickael Almeida não se encontram na melhor forma. O caso de Rafael Leão é diferente. Órfão de alguns dos melhores jogadores, Hélio chamou os bracarenses Francisco Trincão, David Carmo, e Francisco Moura, o vimaranense Romain Correia para a defesa, Pina para o meio campo, o benfiquista Nuno Santos, Elves Baldé ao Sporting, Teixeira ao Rio Ave e… Pedro “Martelo” Correia, dono do golo-diamante, ao Deportivo. Alguns deles desconhecidos mas que provaram que nem só dos três grandes vive (e deve viver) a formação portuguesa.

Mais uma etapa conquistada. Portugal é campeão europeu sub-19

O resto é história, e esta geração de 1999 está a escrevê-la a negrito. Grandes talentos destacam-se como João Filipe, Francisco Trincão, Florentino Luís, Miguel Luís, Rúben Vinagre, Diogo Costa, Domingos Quina, Zé Gomes ou Diogo Queirós, fora aqueles como João Félix, Dalot, Gedson e Diogo Leite que foram “demasiado bons” para integrar esta seleção. Ganharam o primeiro Europeu sub-19, e começam a despontar vozes que sugerem um apelido a esta geração, algo que só as grandes seleções merecem. E para quê chamá-la de ouro outra vez, quando não falta personalidade a esta geração. Então, o jornalista Pedro Barata avançou com a Geração Diamante.

É a primeira vez que uma só geração conquista a Europa na categoria sub-17 e sub-19. Estes nomes estão outra vez nas capas dos jornais e talvez voltem daqui a dois anos, no Europeu sub-21, para reluzirem bem alto. Estes diamantes precisam de ser lapidados e juntar-se àqueles que há pouco tempo passaram pela mão de Hélio Sousa, Rui Jorge, e Ilído Vale. Depois do Ouro, da Coragem, num pós-Ronaldo Portugal precisa de algo mais refinado, já a ser transformado pelos melhores mineiros da Europa. E à falta de picareta, é com Martelo que se faz a Geração Diamante.

 

 

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.

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