Joel Pinto: de colega de CR7 no Sporting, a timoneiro do Monte Agraço FC

No âmbito da rubrica Entrevistas Ambidestro estivemos à conversa com Joel Pinto. Guarda-redes de formação, onde dividiu o balneário com Cristiano Ronaldo no Sporting CP, ganhou todos os escalões jovens onde militou. Deixou as luvas e optou por ir para o banco e tem feito um percurso invejável como treinador, passando por diversos escalões. Hoje é o treinador principal do Monte Agraço Futebol Clube.


Olá Joel. Desde já, agradeço a tua disponibilidade para concederes esta entrevista para o Ambidestro.

Analisando o teu vasto currículo desportivo, é para mim, uma honra, partilhar a tua experiência com os nossos seguidores.

Antes de nos debruçarmos sobre a tua vasta carreira profissional como treinador, vou abordar um pouco o teu passado como atleta. Sei que iniciaste o teu percurso desportivo no Sporting Clube Portugal, onde inclusive, foste colega de Cristiano Ronaldo.

 

AMBIDESTRO: Nessa altura ninguém poderia imaginar que o Cristiano fosse o que é hoje. Que memórias guardas dessa altura?

Joel Pinto: Felizmente tive a sorte de ao longo da minha vida desportiva, ter jogado com alguns dos melhores jogadores da actualidade, um deles sem dúvida é o Cristiano ou não fosse o melhor jogador do mundo. Para ser sincero ao contrário do que muita gente pensa, estou convencido que nos primeiros anos existiam jogadores no plantel com mais rendimento, que poderiam até ser considerados melhores jogadores. Mas havia uma coisa em que ele marcava a diferença, na personalidade e convicção nas suas capacidades. Era muito trabalhador como é do conhecimento público, mas só quem acompanhou é que tem noção do quanto trabalhou para ali chegar. Lembro me de um episódio que mostra a sua personalidade. No primeiro treino que veio fazer com a nossa equipa, na altura era infantil, no final dos treinos havia uma praxe que era feita pelo mister Osvaldo Silva, que consistia em que os jogadores novos, tinham que dar toques no meio de todos os outros elementos do plantel, todos tinham grande dificuldade, não é fácil para um menino de 11 ou 12 anos no 1º treino que realiza com o plantel de um clube grande como o Sporting Clube Portugal, ficar assim exposto à frente de todos os elementos do plantel. Ele recebeu a bola, parou calmamente, e levantou de uma forma como eu nunca tinha visto até aquele momento, começou tranquilamente a dar toques de todas as formas. Ganhou logo ali o respeito de todos. Este episódio demostra claramente como é a sua personalidade e porque é um campeão.

 

AMBIDESTRO: Já tinhas à época vincado o desejo de seres guarda-redes ou aconteceu naturalmente?

Joel Pinto: Quanto a mim, sempre sonhei ser jogador de futebol como tantos milhões de meninos, sempre quis ser guarda-redes desde que me lembro de ver futebol, tinha um grande ídolo que era o Vítor Baía. Não foi por falta de jeito para jogar em outra posição, até porque dos meus pontos fortes sempre foi o jogo com os pés, mas foi uma posição que sempre me apaixonou. Penso que pela liderança em campo e pela responsabilidade e importância que tem numa equipa. Embora não tenha chegado ao topo como jogador, fico feliz com tudo o que o futebol me deu e tudo o que conquistei, se sou o que sou hoje muito devo a toda a experiência que fui acumulando ao longo de todos os anos em que fui jogador. Consegui estar em todas as realidades desde a 1ª liga até à 2ª distrital… é raro, mas foi uma experiência muito enriquecedora. 

 

Joel Pinto de leão ao peito. O Sporting foi um dos muitos clubes por onde passou e honrou a camisola

 

O seu percurso como jogador foi repleto de êxitos, ganhou praticamente em todos os escalões de formação e nos séniores, foi campeão Nacional pelo Casa Pia e vice campeão pelos emblemas do GS Sacavenense e pelo Monte Agraço FC. O espírito guerreiro e de campeão, está associado à sua carreira de jogador. No entanto, desde cedo, decidiu que o seu caminho, seria no banco.

 

AMBIDESTRO:  O que te motivou a desistires do percurso de futebolista para abraçares a difícil missão de treinador?

Joel Pinto: Está muito ligado à minha personalidade, sempre quis ser um vencedor, por vezes até exagerava. Levava sempre essa vontade e crença para dentro do campo, como a partir de determinado momento da minha vida desportiva percebi, comecei desde cedo a ser um líder, para o bem e para o mal isso ajudou a perceber qual era o meu caminho. Existem coisas sem grande explicação, por exemplo nos jogos antigos de consola, como por exemplo o Fifa 96 do meu tempo, os meus amigos adoravam jogar e controlar os jogadores. Eu não! Gostava de ver os jogos, fazia substituições e tirava notas, não tinha muita lógica, mas com 11 ou 12 anos já ambicionava mais ser treinador do que jogador. Quando jogava na 2ªDivisão B no Casa Pia, com 23 anos acabei por tomar uma decisão, afastar me um pouco do futebol e dedicar-me ao curso de educação física, embora tenha decidido deixar de jogar, acabei por jogar sempre atá aos 29 anos, mas num nível distrital, pois não conseguia resistir aos convites de voltar a jogar e ajudar alguns clubes a atingirem os seus objectivos. Mas fui sempre sendo ao mesmo tempo treinador de vários escalões de formação.

 

AMBIDESTRO: Tal como fizeste em jogador, o “mister” Joel Pinto de hoje, já percorreu um longo caminho, começando pela formação na época de 2008/09 nos sub 12 das Escolas Academia Sporting / Atlético Clube Cacém. Consideras que a passagem de um treinador pela formação, é premente para a adaptação às várias exigências da função?

Joel Pinto: Infelizmente na minha opinião o processo está invertido. Os melhores treinadores e mais experientes e com mais formação deveriam estar na formação, o que acontece é que por falta de oportunidades milhares de aspirantes a treinador, treinam jovens de 7, 8, 9 anos como se de uma equipa sénior se tratasse, o que faz com que cometam muitos erros para o crescimento destes jovens atletas. Eu próprio passei por essa experiência. Sinto que sou demasiado competitivo para poder ser treinador de formação a tempo inteiro, claro que com o passar dos anos nos vamos adaptando e fazendo o que é correcto. Mas sem dúvida foram experiências muito importantes para mim e para o meu crescimento.

 

AMBIDESTRO: Foste adjunto nos seniores do Sacavenense e como treinador principal, representaste diversos emblemas como os juvenis do Oriental, o Pinheiro de Loures, os Juvenis do ADCEO, os Juniores do Casa Pia até que, agarras a primeira equipa senior (Sociedade Recreativa Catujalense), na época de 2015/16. Constróis uma estrutura e na época de estreia, sobes à 1ª Divisão Distrital da AFL. Fala-nos um pouco desse percurso.

Joel Pinto: Ao longo do meu percurso como treinador passei por quase todos os escalões e campeonatos, desde a 2ª distrital até à 1ª Divisão Nacional de Juniores. Nada me tem sido oferecido, tudo tem sido conquistado através do meu trabalho dedicado e profissionalismo, porque acredito que mesmo sem sermos profissionais, temos que trabalhar como se o fossemos. Se a nossa ambição é chegar a esse nível temos que estar preparados para se algum dia a oportunidade aparecer, podermos  corresponder da melhor forma. Felizmente tenho trabalhado em clubes que acreditam no meu trabalho e me dão condições para realizar épocas positivas.

 

 

No ano de estreia, Joel Pinto levou a SR Catujalense à subida de divisão

 

 AMBIDESTRO: Focando agora o presente, estás como treinador principal do Monte Agraço Futebol Clube, uma casa que conheces bem. O clube milita da 2ª Divisão Distrital da AFL e é evidente que já denota o teu cunho. Que prespectivas tens no Monte Agraço FC?

Joel Pinto: O Monte Agraço é um clube com mais de 100 anos de história, vem de uma grave crise desportiva,onde os resultados têm sido realmente maus. Os adeptos e patrocinadores do clube afastaram-se, os jogadores da casa estavam descrentes, os potenciais reforços não queriam jogar no clube. Em termos de condições é um clube que se bate com muitos do campeonato de Portugal, desde o ginásio, posto médico, balneários, mas faltava estruturar tudo o resto. Entrou uma nova direcção com pessoas que já conhecia desde os tempos de jogador, sei que são sérias e profissionais, e têm uma vontade enorme de levantar o clube, foi por isto que recusei outras propostas, para treinar um clube da 2ª divisão distrital. Ficámos com muitos jogadores da casa que estavam ligados ao insucesso das últimas épocas, jogadores jovens, com talento, mas que tiveram que mudar o chip e perceber que o futebol tem que ser levado a sério, juntamos a estes, jogadores experientes e que sabem o que é vencer. A verdade é que para já, estamos a realizar um excelente início de época. O que me foi pedido pela direcção era ter uma equipa competitiva a lutar pela vitória todos os domingos, fazendo com isso, que os sócios e adeptos do clube voltassem a apoiar e a estarem presentes. Para já, os jogadores têm sido fantásticos, o pouco que conquistamos deve-se a eles e ao compromisso que têm com os objectivos do clube. Estamos em primeiro lugar e no último jogo, conseguimos ter o nosso estádio quase cheio, com muita gente a apoiar o clube da terra. Estamos no bom caminho, este clube merece estar em divisões bem superiores à que se encontra actualmente.

 

AMBIDESTRO: Não querendo que nos confidencies aspectos demasiados técnicos, como é o Joel Pinto treinador. Como joga uma equipa com os teus critérios?

Joel Pinto: A finalidade é sempre ganhar no domingo. Adapto o modelo de jogo da minha equipa aos jogadores que temos e à realidade que vamos jogar. Neste momento, somos uma equipa muito organizada defensivamente, ainda não sofremos qualquer golo no campeonato, e muito fortes na transição e no controlo de profundidade. Na divisão que jogamos entendo que estes são os aspectos fundamentais para se ganhar. É isso que procuro sempre, a ideia de jogo que trabalho está sempre adaptada ao contexto em que estou inserido. Claro que há traços que são sempre vincados nas equipas que treino, por norma revejo-me na atitude que os meus jogadores demonstram dentro de campo.

 

Joel Pinto com o plantel que lidera actualmente – Monte Agraço Futebol Clube

 

 AMBIDESTRO: Apesar de jovem, a tua carreira já é bem madura e com vasta experiência. Abordando o futuro….existe algum clube que gostasses muito de treinar em Portugal ?

Joel Pinto: Embora como toda a gente tenha um clube desde pequeno, quero ser profissional, logo o meu clube será sempre aquele que tiver oportunidade de treinar. Como é lógico, gostaria de chegar ao futebol profissional, quem sabe um dia poder trabalhar num dos chamados grandes. Mas isso não passa de sonhos, tenho os pés bem assentes no chão, sei o caminho que quero percorrer, o quanto difícil é, não é de sonhos que se vive, apenas alimentam a nossa ambição. Por isso procuro dar passos sólidos no meu crescimento profissional e fazer o meu caminho. No final logo se vê que nível vou atingir.

 

AMBIDESTRO: Sei que estás prestes a iniciar o Nivel III -Treinador. Que trajecto tens delineado para continuares a evoluir na tua carreira?

Joel Pinto: Como já referi, o meu objectivo é chegar ao futebol profissional. Sei que em Portugal é muito difícil, subir do futebol amador, para o nível profissional. Se não conseguir nos próximos dois anos chegar a um nível intermédio, muito provavelmente terei que passar por duas ou três experiências no estrangeiro, para depois poder ter oportunidades no meu país. Portugal tem os melhores treinadores do mundo, é reconhecido por isso em todos os cantos do mundo e isso deixa-me confiante.

 

AMBIDESTRO: Joel, tendo em conta a tua vasta formação desportiva e os diversos cursos, colóquios e palestras em que participaste, qual o teu maior sonho no futebol ?

Joel Pinto: Participar num jogo da Liga dos Campeões.

 

AMBIDESTRO: O mister Joel, à semana tem diversas indumentárias para as diversas missões que abraça. Fala-nos um pouco de como é, o teu dia-a-dia típico.

Joel Pinto: Na minha semana não existem folgas. De segunda a sexta-feira e ao domingo de manhã, trabalho como comercial das 9 às 15. Das 15:30 às 18:30 dou aulas no Colégio Pedro Arrupe de segunda a sexta. Acumulo como adjunto nos Juniores do Alverca e no dia de treino de juniores, sigo do Parque das Nações, para o treino em Alverca às 20 Horas, no dia de treino de seniores, sigo para o sobral para dar treino às 21h. Chego todos os dias a casa por volta das 23 horas. Após jantar, faço a observação de adversários, e planeamento de treino até tarde. Para no dia a seguir voltar à mesma rotina. Ao sábado de manhã tenho desporto escolar. À tarde jogo de juniores. Ao domingo à tarde tenho o jogo de seniores. Não é fácil, mas sempre fui educado para trabalhar e lutar pelos meus objectivos, sou um sortudo por ter à minha volta, pessoas fantásticas que me apoiam e ajudam em todos os momentos.

 


Pedia-te agora, umas respostas rápidas para os seguintes itens.

Prato favorito: Bitoque 

Música favorita: Depende do momento

Filmes favoritos: O Gladiador 

Tempos livres: Ler, desporto, cinema, praia

Talento escondido: Ainda o tenho que descobrir

Ídolo de infância: Vítor Baía

Treinador mais marcante: José Mourinho e Diego Simeone

Melhor treinador da atualidade: José Mourinho      


AMBIDESTRO: Joel, foi um prazer. Em meu nome e em nome do AMBIDESTRO, votos das maiores felicidades desportivas e pessoais. Iremos certamente, acompanhar o teu percurso, na certeza porem de que, o destacaremos.

Joel Pinto: Da minha parte, eu é que vos quero fazer um agradecimento sincero, por se interessarem pelo meu trabalho, e me darem a oportunidade de o partilhar. Desejo as maiores felicidades e que continuem a vossa missão.

 

Guilherme Freire Coelho

Alfacinha apaixonado pela vida e dela, faz parte o futebol. Defendo-o como desporto, respeito-o pela vertente social e admiro-o como espectáculo. A bola, é mero instrumento para os artistas brilharem. Não escrevo sobre bola mas sim, sobre Futebol, sempre de forma transparente e com fair-play.

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