Deixem os miúdos serem felizes com a bola no pé

Em tempos de outrora, dávamos os primeiros toques na bola, na rua e muitas vezes, reféns dos caprichos do dono da bola….as balizas eram alvo de inspiração e do local da “jogatana”, alguns de nós, almejávamos jogar num campo pelado, onde uma queda era sinónimo de esfoladela na hora (sem direito a lesão), comia-se pó e no inverno, a lama na roupa era sinal que tínhamos dado tudo em campo….os pais, muitas vezes nem assistiam aos jogos. Hoje, tudo mudou e temos as academias, treinadores especializados, botas com cores fluorescentes e comemorações de golos de formas criativas. 

Apesar de realidades distintas, surge um vector preponderante para as crianças no universo do futebol de formação: os pais. Estes felizmente estão cada vez mais presentes e focados nos treinos e jogos dos seus filhos mas muitas vezes, abdicam de tal papel social, tornando-se em treinadores de bancada, que querem ensinar tudo aquilo que sabem e muitas vezes, exigir aos filhos, o que gostavam de ter feito, ou sabido fazer…

O constante gritar para dentro de campo funciona como banda sonora de alguns jogos. Cobram e exigem que as crianças não falhem, para terem fama e consequentemente, sucesso financeiro. Banalizando assim, o fazer apenas e só, por mero prazer e o ser feliz, só porque sim.
Cada vez é mais frequente, os “miúdos” receberem pressão para serem bem sucedidos, para serem os melhores, cada vez mais, têm menos espaço para errar, impondo a estes, um espírito combativo e de vitória muitas vezes, gananciosa.

No seguimento desta linha de pensamento, o jornal inglês The Guardian, deu a conhecer um estudo feito na Suécia que espelha um exemplo de sucesso, que tanto que eu gostava que se expandisse a Portugal. Estes revelam que, as crianças sentem directamente o impacto da exigência dos pais e que, um em cada três jovens pondera abandonar o futebol, devido à pressão que sente. Amadurecido este raciocínio e o mote estava dado para que, na Suécia se levasse a cabo, uma acção tripartida entre três clubes de Estocolmo (Djurgdarden, AIK e Hammarby), que resolveram meter mãos à obra.

Muitos dos jogos das camadas mais jovens são compostos por crianças que estão a dar os primeiros toques na bola e a familiarizarem-se com o ambiente desportivo. No entanto, existem famílias que assistem nas bancadas e se esquecem da idade dos miúdos assim como, tudo em seu redor. Muitos desses pais (honra seja feita a quem não se revê neste ponto de vista), ignoram a formação e o futebol como um jogo a ser encarado numa vertente de prazer e competição salutar. Tornam por vezes, o ambiente numa pressão inadequada e de tremenda falta de respeito para com os seus filhos e formadores.
Essa pressão nada saudável que afasta grande parte dos miúdos dos relvados, foi o rastilho para que os três clubes da capital sueca, mostrassem um cartão vermelho a tais atitudes, criando assim, argumentos para o desenvolvimento desta problemática.

Concluíram então que: uma em cada três crianças queria desistir devido ao comportamento dos então apelidados “pais sobreenvolvidos”. Dos cerca de mil adultos inquiridos, 83% afirmou já ter assistido a pais que cobravam e exigiam demais aos seus filhos, alem de terem atitudes menos dignas com os árbitros que muitas das vezes, também estão em processo de formação.

Os três emblemas suecos criaram um código de conduta, na expectativa de inverter tais comportamentos e evitar que as crianças, deixassem de sonhar motivadas por pressões alheias ao futebol de formação.
O The Guardian publicou o referido código que se traduzia no seguinte texto: “Eu, como pai, farei tudo o que estiver ao meu alcance para apoiar o meu filho, as outras crianças, os membros do clube, os árbitros e os [outros] pais nos campos de treino e durante os jogos, através de um ambiente positivo”.

Segundo o vice-capitão do AIK, Stefan Ishizaki: “Num ambiente desportivo, para proteger a criança, a felicidade tem de ser a coisa mais importante porque é o que a vão levar para o resto das suas vidas. Os jogos, os torneios e as sessões de treino, é onde vais passar o tempo com os teus amigos e a fazer algo que gostas. Futebol é paixão. É a felicidade, tristeza e todas as emoções entre elas. Futebol é a coisa mais bonita que existe e é assim que se deve manter.”

Caros leitores e amigos, quão dignificante seria se, neste rectângulo à beira mar plantado, fizéssemos deste exemplo, um mote a seguir um pouco por todos os recintos desportivos e em particular na formação.

 

Guilherme Freire Coelho

Alfacinha apaixonado pela vida e dela, faz parte o futebol. Defendo-o como desporto, respeito-o pela vertente social e admiro-o como espectáculo. A bola, é mero instrumento para os artistas brilharem. Não escrevo sobre bola mas sim, sobre Futebol, sempre de forma transparente e com fair-play.

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